segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Brasileiros estão trocando duas rodas das motocicletas por cadeira com duas rodas

     Os acidentes com motocicletas estão assustando consumidores e podem explicar em parte a queda das vendas desses veículos. Segundo a Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas, Bicicletas e Similares (Abraciclo), a venda de motocicletas caiu 17,4% no país nos quatro primeiros meses do ano em comparação com o mesmo período de 2014. Já a fabricação de motocicletas no mês de abril, quando comparada com abril de 2014, apresentou queda de 30,7%.
    O fator medo de acidente como uma das razões que justifica a queda nas vendas foi detectado pela Agetran (Agência Municipal de Transportes e Trânsito) de Campo Grande no Mato Grosso do Sul e pode estar ocorrendo em outras cidades. Ao perceber que 70% dos mortos em acidentes de trânsito em Campo Grande em 2015 foram motociclistas, a população começou a repensar a compra, principalmente porque os dados do DPVAT revelam que 70% das indenizações por invalidez permanente no país são pagas em decorrência de acidentes com motos.Com isso, cada vez mais o consumidor que pode comprar uma motocicleta está refletindo sobre os riscos e colocando a segurança como fator de peso na hora de decidir.
  A economia de combustível, praticidade da motocicleta, começa a enfrentar a concorrência do fator segurança. Embora não seja uma reversão de tendência com resultados significativos na redução de acidentes no curto prazo, é uma luz no fim do túnel. As pessoas estão começando a entender que enquanto as campanhas publicitárias das motos dão ao consumidor a sensação de que será levado para um mundo de liberdade, a realidade demonstra que em pouco tempo ele poderá trocar as duas rodas da moto, pela cadeira de duas rodas.
   O problema não está no veículo em si, embora indiscutivelmente seja muito mais perigoso, mas num país cuja legislação é omissa quanto ao tráfego no corredor e cuja fiscalização de habilitação, uso de equipamentos de segurança, documentação é precária. Sem contar as deficiências no transporte público e na formação dos condutores. Esse conjunto de fatores contribuem para os números cada vez mais impressionantes de acidentes com motos e vítimas decorrentes.
   Como se não bastasse, o país tem uma frota em torno dos 23 milhões de veículos de duas rodas motorizados e nada menos que 41,2% dos proprietários não pagaram o DPVAT em 2014. Portanto, a categoria que mais consome os recursos para indenização é justamente a que mais registra inadimplência.
   De qualquer forma foram R$ 2,77 bilhões que deixaram de ser arrecadados, a considerar o valor de R$ 292,01 pagos pelos proprietários de motos no Brasil . Esses recursos fazem falta e podem comprometer o seguro que protege todos os brasileiros no caso de acidente de trânsito. O valor mais alto do DPVAT para os motociclistas se explica pelo número crescente de acidentes com esses veículos.
   Estamos numa espécie de Globo da Morte, cuja solução é a priorização de outros meios de transporte e fiscalização rigorosa das motocicletas, não para punir, mas sim para preservar vidas. Não há como fechar a viseira para essa realidade, com as motos cada vez mais brasileiros terão como destino final o cemitério ou a invalidez.
Rodolfo Alberto Rizzotto
Formado em Direito e Economia, coordena o programa de segurança nas estradas SOS Estradas e edita o site www.estradas.com.br, onde é possível acompanhar os temas de seus artigos também em arquivos de áudio, disponíveis para download.

Fonte: http://www.viverseguronotransito.com.br/